A CIA, a Máfia e um objetivo em comum: matar Fidel Castro

Que a CIA – a Agência de Inteligência Central, traduzido do inglês – já teve seu nome associado a conspirações, assassinatos e roubo de informações não é novidade. Porém, o que poucos sabem sobre o principal órgão de inteligência estrangeira dos Estados Unidos é que ele já aliou-se a uma rede criminosa que é velha conhecida dos americanos: a Máfia. O objetivo? Simples: matar Fidel Castro.

Background

O ano era 1960. O mundo vivia dividido em dois grandes polos: o Capitalismo, liderado pelos Estados Unidos, frente ao Comunismo, representado em sua máxima pela então União Soviética. Ou seja, a Guerra Fria aos poucos tomava lugar.

O presidente americano na época, um republicano chamado Dwight Eisenhower (talvez mais conhecido como o antecessor de ninguém menos que John Kennedy), dava sequência ao trabalho iniciado nos governos anteriores: o de, basicamente, continuar conquistando o máximo de aliados possíveis para os EUA, além de sabotar as frentes comunistas que defendiam o lado dos soviéticos.

Uma destas frentes, cuja localização geográfica era muito próxima à dos EUA, era na época administrada por um sujeito em ascensão, polêmico, mas quase um ícone para seu povo: Fidel Castro, então Primeiro Ministro de Cuba após conduzir uma revolução no país.

Conhecido por sua inclinação às ideologias propostas pela União Soviética, Castro, porém, não se declarava abertamente como um socialista ou comunista. Em âmbito nacional, exercia certa liderança sobre os cubanos, principalmente em meio às classes menos favorecidas; assim, tinha seu regime mais popular entre estudantes, lavradores e trabalhadores.

Fidel Castro aclamado por um grupo de jovens em Cuba. 1960.

Na época, porém, Fidel mantinha relações ao menos cordiais com o governo norte-americano. Embora houvesse essa discordância de visão entre os Estados Unidos, que, economicamente, representavam o modelo Capitalista, e Fidel, que defendia certas ideias tidas como Comunistas, ambos eram até mesmo parceiros para determinados negócios.

O governo de Cuba, por exemplo, hospedava em seu território refinarias que eram controladas por algumas grandes empresas norte-americanas, como a Shell, Esso e Standard Oil. Na época, o açúcar era o produto líder em exportações no país; o carro-chefe dos cubanos. Assim, tinha papel importante em sua economia.

Por isso, quando Fidel entrou em um acordo com o então Vice Primeiro-Ministro da União Soviética, Anastas Mikoyan, ainda em 1960, concordando em fornecer aos soviéticos açúcar, frutas, fibra e peles, em troca de alguns bens industriais, óleo e um empréstimo de $100 milhões, as refinarias e o próprio governo dos Estados Unidos entraram em rota de colisão com Fidel.

O conflito

Devido ao acordo, Fidel colocou-se em uma posição vulnerável com os americanos.

Vendo-se subitamente entre os dois grandes polos da época, ele, inicialmente, tentou pressionar as refinarias para que começassem a processar óleo soviético. Entretanto, foi uma decisão equivocada: com o governo dos Estados Unidos de olho na situação, elas se recusaram.

Assim, o líder cubano tomou medidas drásticas e um tanto perigosas: nacionalizou as refinarias, expropriando as empresas que as controlavam anteriormente. Os norte-americanos, porém, responderam quase que de imediato, cortando todas as importações que faziam de Cuba, como a do próprio açúcar.

Castro, no entanto, retaliou: mesmo com a economia cubana afetada por conta dos “cortes” em seu setor de exportação, ele deu sequência à expropriação de mais empresas americanas que tinham sede em Cuba. Ou seja, bancos e outras marcas que tinham negócios na ilha foram expulsos; irresponsavelmente, Fidel acabava de repelir os Estados Unidos para longe de seu país, acarretando, com isso, um desequilíbrio econômico e diplomático.

A situação, que já estava tensa entre as duas nações, piorou consideravelmente quando, em 4 de Março de 1960, a embarcação francesa La Coubre explodiu no porto de Havana.

O navio cargueiro, que levava consigo aproximadamente 76 toneladas de munição compradas da Bélgica, por Castro, sofreu duas explosões em um intervalo de apenas alguns minutos, causando mais de 70 mortes e deixando vários feridos.

No dia seguinte ao acontecido, celebrou-se um memorial em nome de todas as vítimas. Fidel, na ocasião, deu um discurso culpando o governo dos Estados Unidos pelo ataque. Os norte-americanos, posteriormente, negaram qualquer envolvimento na ação, e até hoje não se comprovou o que de fato houve com o navio.


Além de Castro, outro nome muito famoso entre os cubanos estava presente nas homenagens póstumas ao La Coubre; um sujeito que, no dia do ataque ao navio, ajudou a socorrer e prestar cuidados médicos aos feridos: Che Guevara.

Na ocasião do memorial, ele foi fotografado por Alberto Korda no que viria a ser a sua imagem mais famosa e icônica, chamada de Guerrillero Heroico.

A fotografia original de Che Guevara, por Alberto Korda.

Mesmo com os Estados Unidos negando qualquer participação no ataque à embarcação, o estrago já fora feito para Fidel: encerrando seu discurso com a frase “¡Pátria o muerte!” (que, por sinal, viria a ser um dos bordões do próprio Che Guevara nos anos seguintes), o líder cubano assumia então um posicionamento explícito contra os americanos.

A guerra fora iniciada.

A máfia

Com a declaração de Fidel e a relação Estados Unidos-Cuba cada vez mais delicada, a situação estava tomando um mau caminho. Já passava da hora de o governo americano agir.

Assim, o presidente Eisenhower tomou uma decisão singular: inspirado pelo Golpe de Estado ocorrido na Guatemala, em 1954, onde a CIA conduzira uma ação para derrubar o então presidente Jacobo Guzmán, ele deu aval para que a agência iniciasse outra operação semelhante, mas dessa vez abrindo fogo contra Cuba e contra a administração de Castro.

Aproximadamente US$ 13 milhões foram destinados à agência, na época, para que desse sequência a ações visando tirar Fidel Castro do governo cubano. O então Diretor da CIA, Allen Dulles, começou a planejar de imediato meios para concluir a operação.

Uma das primeiras manobras pensadas por Allen foi a de conseguir aliados que também buscassem a deposição de Fidel em Cuba, a fim de dar mais solidez para a iminente operação.

Nesse meio tempo, o carismático JFK assumiu a presidência dos Estados Unidos e também deu entrada no planejamento. Ele e Allen logo voltaram seus olhares para dois sujeitos famosos no submundo estadunidense, já “velhos conhecidos” das autoridades: Sam Giancana e Santo Trafficante Jr..

Giancana, na época, liderava a organização conhecida como Chicago Outfit, a mesmíssima que havia sido controlada, alguns anos antes, pelo notório Al Capone; Trafficante, por outro lado, era um negociante de drogas famoso na Flórida. O que ambos tinham em comum era a sua relação com ela: a Máfia.

Segundo documentos posteriormente divulgados pela própria CIA, a agência então acionou o ex-agente do FBI Robert Maheu para trabalhar como um intermediário até os mafiosos, a mando de Allen. Maheu, sob o disfarce de ser porta-voz de algumas grandes empresas, entrou em contato com Johnny Roselli, um homem muito conhecido no submundo de Chicago.

Utilizando o pretexto de que Fidel, com suas atitudes radicais antiamericanas, estava expropriando diversas empresas representadas por Maheu, ele ofereceu a Roselli a quantia de US$ 150.000 para que eliminasse Castro. O outro, porém, recusou, mas introduziu Maheu a dois sujeitos chamados “Sam Gold” e “Joe”. Eles eram, na verdade, Giancana e Trafficante.

Sam Giancana e Santo Trafficante Jr.

Munidos de motivos para eliminar Castro (visto que a administração deste em Cuba era considerada ruim para os negócios) e agora em parceria com Maheu, que buscava a mesma coisa, Sam Giancana e Santo Trafficante Jr. começaram então a planejar um golpe.

O governo JFK, embora também defendesse a ação, não se envolveu mais a fundo, e o presidente ficou nos bastidores dispondo de um canal de comunicação direta com Giancana: Judith Campbell Exner, que diz-se ter sido amante tanto de JFK quanto do mafioso.

Visto que Castro já havia sobrevivido a uma série de tentativas de assassinato e ainda sobreviveria a outras tantas (incluindo uma de suas amantes sendo paga para eliminá-lo e uma caixa de charutos explosivos que acabou não lhe sendo entregue), o plano proposto por Giancana foi um pouco diferente do habitual. Como o acesso direto até o líder cubano era pouco prático, o chefe mafioso sugeriu então envenená-lo. E o intermediador da ação seria alguém muito próximo de Castro: o seu secretário de escritório, um homem chamado Juan Orta.

Sendo conhecido de Fidel desde antes de o mesmo assumir o controle de Cuba, Orta gozava de grande confiança por parte dele. Em 1959, quando retornou à ilha após um tempo vivendo na Flórida, se tornou então o secretário de Castro, mantendo contato diário com ele e inclusive trabalhando em seu escritório em Havana.

Por isso, na visão dos mafiosos, seria o canal perfeito para chegar até o polêmico líder cubano. Assim, o contataram.

O desfecho

Inicialmente, seis pílulas potentes foram entregues a Orta, para que fizesse com que Castro as ingerisse. O combinado era de que elas fossem dissolvidas em seu café.

O secretário, porém, não levou a cabo o plano, sendo demitido da equipe de Fidel algum tempo antes, sem que tivesse acesso às pílulas.

Posteriormente, quando Castro veio a descobrir o quase-envolvimento de Orta na operação, declarou inimizade a ele.

Mas mesmo com Orta fora de jogo, a Máfia ainda tinha uma carta na manga: Marita Lorenz. Uma das mais notórias amantes de Fidel, ela se tornou um último recurso de grande valia para que a ideia proposta por Giancana, de envenenar o líder cubano, pudesse ser concretizada.

Através do mesmíssimo Johnny Roselli, Marita então recebeu pílulas semelhantes às que haviam sido utilizadas da primeira vez. E novamente, tinha como objetivo dissolvê-las na comida ou na bebida de Castro.

De novo, o plano não foi adiante.

Marita até tomou posse das pílulas e as levou para a casa de Fidel. Entretanto, não foi capaz de envenená-lo, e acabou por contar o esquema todo para ele.

Surpreendentemente, Fidel não a puniu. Os dois, inclusive, voltaram a se ver nos anos que se seguiram, e, mesmo Lorenz abandonando Cuba pouco depois, ela visitou Castro uma última vez em 1981.

Hoje em dia

Marita está atualmente com 77 anos de idade. Por ironia do destino, pode-se dizer, ela mora nos Estados Unidos. Sua história e o épico momento que viveu com Castro foram imortalizados em alguns filmes e em uma biografia entitulada “Marita: One Woman’s Extraordinary Tale of Love and Espionage from Castro to Kennedy” (no Português, algo como “Marita: O Extraordinário Conto de Amor e Espionagem de uma Mulher desde Castro até Kennedy”).

Já o polêmico líder cubano, responsável por alguns importantes passos para sua nação, ainda que repleto de decisões cruéis e impensáveis em sua trajetória, veio a falecer em 25 de Novembro de 2016, em Havana, aos 90 anos de idade.

Após as tentativas de assassinato que sofreu e que foram aqui divulgadas, Castro enfrentou mais alguns atentados em seu reinado como revolucionário, com destaque para o ataque fracassado de 1961 conhecido como “A Invasão à Baía dos Porcos”, por forças norte-americanas.

Afastado do poder desde 2008 por motivos de saúde, ele delegou o cargo de presidente para seu irmão, Raúl Castro, que é o atual Chefe de Estado cubano.

Os governos de Cuba e dos Estados Unidos atualmente mantêm relações cordiais desde 2015, quando o então presidente norte-americano Barack Obama apertou a mão de Raúl Castro em uma convenção das Américas no que ocorreu no Panamá, em 11 de Abril.

O governo americano, inclusive, fez uma visita oficial inédita à Cuba em Março de 2016.

Deixe uma resposta