Crônicas: Assalto? (Parte II)

Resignado, observei enquanto o ônibus se afastava lentamente no horizonte. Então dei meia volta, perdido.

Mais para aliviar os nervos do que por qualquer outra coisa, entrei em uma cafeteria que havia ao lado. Afinal, o próximo ônibus passaria em sabe-se lá quanto tempo, e ficar aguardando no banco duro da parada definitivamente não era uma alternativa.

Assim, entrei no estabelecimento e procurei por uma mesinha livre. O local tinha teto baixo e era um tanto encardido, mas isso não importava. Se tivesse um bom café, estava valendo. Se não tivesse, era aquele velho ditado: “o que não mata, engorda”.

A garçonete, aparentando certa má vontade, veio até minha mesa arrastando os pés. Sem mais delongas, fiz o meu pedido e ela se afastou.

Como eu estava em uma das primeiras mesas, deixei meu olhar vagar rua afora. Ao meu redor, havia algumas poucas pessoas ocupando outras mesas e ainda umas escoradas no balcão de atendimento do café, todas aparentando imensa tranquilidade – o que me irritava, diga-se de passagem.

Quando a garçonete voltou trazendo meu café, eu já estava cogitando ir embora, com receio de perder o próximo ônibus. Entretanto, logo que pensei em pedir para ela colocar a bebida em um copo para viagem, meus olhos encontraram os dela e eu vi em sua expressão que, se lhe pedisse aquilo, causaria à moça um imenso sofrimento. Era como se ela soubesse exatamente o que estava se passando em mente, e o transmitisse com seu olhar vazio e seu sorriso azedo.

Assim, desisti da ideia.

Péssima decisão.

Ela se afastou e eu experimentei um gole do café. Para minha surpresa, não estava ruim; talvez o leite estivesse um pouco coalhado, é verdade, mas nada que eu já não tivesse provado antes. Por isso, inconsciente de todo o resto, me ative a bebericá-lo.

Com estrépito, as portas do café se abriram para duas figuras; um casal, eu diria. Caminharam lentamente até uma das mesas, e, quando a garçonete chegou, dispensaram-na sem muita cerimônia. Ficaram conversando com certa cumplicidade.

Devaneando, terminei minha bebida e saquei a carteira do bolso. Sabe-se lá por que cargas d’água, fiquei aguardando a garçonete me trazer a conta por uns bons minutos antes de, atordoado, levantar e me dirigir ao balcão, matutando.

Neste lugar, não tem conta.

Quando se está em um filme de baixo orçamento, não é uma decisão sábia esperar pelo glamour e pela riqueza. Assim, quando se está em um café de teto baixo e encardido no centro de alguma metrópole qualquer, não é uma decisão sábia esperar por um atendimento primoroso.

Aproximei-me do balcão, onde um senhor de idade estava sentado ao lado do caixa. Na verdade, parecia estar dormindo. Logo que parei à sua frente, no entanto, ele me deu um sorriso e anunciou o valor do café:

– São dois reais, filho.

Tentei retribuir o sorriso, mas imagino que tenha ficado um esgar. De qualquer forma, entreguei o dinheiro a ele e o mesmo o colocou na caixa registradora.

Virei-me para sair, carregado com as sacolas. Mas antes que conseguisse dar um passo sequer, tive a passagem bloqueada por duas figuras: o casal que havia entrado antes.

Preso entre eles e o balcão, pigarreei e tentei pedir licença ao homem. Ele ignorou. Até pensei em altear a voz, mas sinceramente, eu não tinha reparado no quão alto ele era. Melhor não. O dia já vinha sendo suficientemente estressante sem que eu apanhasse de um estranho em um café.

Por isso, dei um passo para o lado, a fim de dar-lhes passagem. Nenhum dos dois, porém, fez menção de passar. Em vez disso, eles colocaram as mãos nos bolsos, e, simultaneamente, sacaram suas pistolas.

O homem anunciou o assalto em voz alta:

– Todo mundo parado, isto é um assalto!

A mulher, com uma voz esganiçada, completou em brados:

– E se algum filho da puta se mexer, eu vou matar cada um de vocês!

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